domingo, 24 de fevereiro de 2008

Discofonia /16/17/18 Fevereiro)

Festival para Gente Sentada, Santa Maria da Feira, 2008.

Sean Riley & The Slowriders-
Lights Out
Norberto Lobo-
Cantiga da Ceifa
Nina Nastasia-
Late Night

Terry Lee Hale-
Hearts


Richard Hawley-Roll River Roll


Joe Henry-Loves You Madly

"Creio que o disco de colaborações soul, I Believe to My Soul, que criei... foi um projecto que desenvolvi, com o Allen Toussaint, a Mavis, a Irma Thomas, a Ann Peebles e o Billy Preston, foi para mim uma satisfação enorme, porque comecei com uma ideia e levei-a até ao fim, e foi uma viagem e tanto! Sinto-me muito orgulhoso por ter sido feito. Foi quase como realizar um filme, foi um caminho tão longo e envolveu tanta gente antes de se conseguir chegar ao fim... Mas todos os discos que fiz têm alguma vertente de que me orgulho. E tenho um orgulho especial no disco do Solomon Burke, Don't Give Up on Me, porque eu não era a escolha mais óbvia para produzir o disco, e a certa altura achei que não ia ficar com a produção... E fizémos uma coisa única, muito especial, com o Solomon- seguramente, em todo o caso, algo que ele nunca tinha feito antes. Não foi um projecto fácil mas foi bonito e tenho muito orgulho nele."

Joe Henry-Civilians
"As minhas canções não podem ser explicadas como se houvesse legendas num filme... Se houvesse uma forma mais directa, mais limpa, de dizer o que queria dizer, então teria escrito assim. Acho que, por vezes, há aspectos da vida tão obscuros e tão cheios de nuances, que têm que ser enfrentados da mesma forma. Se eu tivesse que resumir essa canção, diria que é sobre pessoas que tentam manter o equilíbrio nas suas vidas, entre as expectativas e a realidade. Que tentam enfrentar o facto de que a vida tem o seu próprio caminho e que não corresponde à forma como a imaginámos, ou sequer que conseguimos controlar esse caminho. E que todos temos que ter paz com o facto de que, a certa altura, há qualquer outra coisa que toma o controlo."

"(Trabalhar com o Ornette Coleman) foi uma experiência transformadora! Eu compreendo que a música dele seja difícil para algumas pessoas, mas podemos dizer o mesmo da música do Duke Ellington, do Erik Satie ou do Stravinsky. O Ornette não toca para soar difícil, ele apenas toca a música como a ouve. É um músico incrivelmente generoso e acho que as melodias dele são admiráveis... são muito espontâneas e podem ser complicadas para algumas pessoas mas, para mim, é alegria pura quando o ouço tocar. E tive imensa sorte que ele tivesse concordado em gravar comigo... a noite em que estivémos a trabalhar foi uma experiência de uma vida... o facto de ele ter acolhido o que eu estava a fazer e de não ter tocado nada por hábito... Ele estava realmente a tentar compreender que contribuição era necessária da sua parte, e eu fiquei-lhe grato, foi realmente espantoso. Acho que ele é um músico sem par, não há ninguém como ele. E a voz dele no saxofone é tão imediatamente reconhecível como a voz do Frank Sinatra. Ouvimo-lo tocar duas notas e sabemos que é ele, e acho que isso é um grande dom."

Joe Henry-
Richard Pryor Addresses a Tearful Nation

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Discofonia (9/10/11 Fevereiro)

The Magnetic Fields-Courtesans

Enrico Rava-
The Words and The Days

"Não sei porque é que acontece, mas ainda agora, nestes últimos anos, descobri o Stefano Bollani, o Gianluca Petrella e muitos outros, que entretanto se tornaram muito conhecidos... Na verdade começaram comigo quando eram completamente desconhecidos e jovens... Eu gosto muito de tocar com músicos novos, que querem ser bem sucedidos, especialmente se estiverem mais ou menos sintonizados com a música como eu a entendo... é muito divertido tocar com eles. Prefiro tocar com gente muito mais nova do que eu do que com músicos da minha idade. Os músicos da minha idade são como pedras, sabe? É impossível pedir-lhes para se abrirem a certas coisas, enquanto os mais novos gostam de explorar, de descobrir, são mais curiosos."

"Antes de mais, eu considero o Gianluca o melhor músico que a Itália produziu nos últimos 20 anos e um dos melhores de sempre, nascidos em Itália. Se ele tocasse clarinete ou qualquer outro instrumento, eu gostaria de tocar com ele de qualquer forma. E o mesmo é verdade do Roswell (Rudd), que é para mim um dos grandes mestres. (...) E, para além disso, eu adoro o trombone! Os meus músicos preferidos são quase sempre trompetistas, o Miles, o Chet, o Louis Armstrong, mas o prazer de tocar é maior com o trombone! Porque o trombone tem o mesmo registo da voz masculina; se eu falar e depois tocar trombone, o som é o mesmo, enquanto que o trompete é mais agudo... E embora eu fosse um amador como trombonista, era mais fácil para mim... com o trompete parece que estou sempre a lutar... Na verdade toco trompete porque gosto tanto de certos trompetistas que queria ser como eles... Mas gostava de tocar trombone. E acho que soa tão bem com o trompete, porque é o mesmo instrumento. Por exemplo, o flügelhorn não é o mesmo instrumento, o flügelhorn é um instrumento cónico, da família das tubas. Mas o trompete e o trombone pertencem à mesma família e, por isso, quando tocamos certos intervalos, por exemplo, se eu tocar uma nota, e o trombone tocar uma harmonia atrás de mim, às vezes produzimos notas extra. Tocamos só duas notas, a minha nota e a nota dele, mas se ouvirmos com atenção, conseguimos distinguir uma série de outras notas pelo meio... Surpreende-me que esta combinação de instrumentos tenha sido tão pouco usada! Excepto talvez o Bob Brookmeyer... mas não me lembro de muita gente, só eu é que juntei o trompete e o trombone como um grupo, sem qualquer outro sopro! Espanta-me que ninguém faça isso porque o som é fantástico e é tão divertido!"

"Para dizer a verdade, não costumo ouvir os meus discos antigos. Normalmente ouço muito um disco quando acabei de o gravar, e durante 2 ou 3 meses não paro de o ouvir, especialmente antes das misturas finais, para decidir pequenas coisas... Mas às vezes, quando ouço discos meus mais antigos, a única coisa que ouço são os erros... Sei que há ali um erro, num sítio qualquer, então espero que chegue o erro (risos)... Ou uma frase que acho que não toquei bem, ou de que não gosto... espero pelo momento do disco que sei que não é bom! É estranho mas nós gostaríamos de fazer o disco perfeito... Este disco, The Words and The Days, é um dos discos em que me sinto 90% feliz. Quando o ouço, penso, ok, é assim que eu gostava de... ser, de tocar, sempre! É este nível que eu gostaria de ter sempre! É um disco que me parece bem tocado, gosto dos temas, e é um disco que conta uma história. Mas também tenho alguns discos que nem sequer consigo olhar para eles! Tenho um, por exemplo, String Band, de que muitas pessoas gostaram, na altura, e eu nem posso olhar para ele! Só de olhar para a capa, sinto-me mal (risos)... Há tantas coisas nesse disco de que eu não gosto... alguns solos, coisas que o resto do grupo tocou que também não gosto... É muito difícil olharmo-nos ao espelho. Quando tocamos, é aquilo e mais nada. Abrimo-nos e pronto, somos nós. Mas nem sempre é uma visão agradável."

(9/10/11 Fevereiro)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Discofonia (2/3/4 Fevereiro)

Cat Power-Ramblin' (Wo)man

Vasco Agostinho-
Fresco

"(A tradição) dá-nos uma base sólida daquilo que pode ser feito, além de que é um treino. Eu gosto de pensar nisto como uma linguagem verbal. Se nós queremos escrever poesia, é muito importante que conheçamos aquilo que já foi escrito (...) e isto no caso da poesia parece-me mais óbvio do que na música. E na música é fundamental porque a construção da nossa linguagem pessoal é um pouco a mistura da nossa vivência musical e a nossa vivência tem a ver com a tradição, tudo o que já foi gravado e que nós gostámos e quisémos adquirir. (...) O que nós queremos não é necessariamente ser conhecedores da tradição- quer dizer, isso dá muito jeito se quisermos dar aulas de história, mas quando se trata de tocar, o que é que nós temos que conhecer? São os recursos musicais que podem ser usados, no nosso instrumento ou na música do grupo. No fundo é isso que é importante. E naturalmente, enquanto português, por exemplo, tive uma série de influências que não vêm exclusivamente do jazz- Carlos Paredes, por exemplo, eu diria que é uma grande influência em mim."

"Desde o fado ao pop, há toda uma série de coisas que vou ouvindo, no meu dia-a-dia, que me despertam a atenção e que eu vou querer aprender porque hoje em dia, também, a música caminha para aí, não é? E caminha para aí porque nós estamos cada vez mais abertos, os músicos são cada vez mais abertos. É uma consequência natural, se calhar, da própria história da música."

"No jazz, quando nos aparece uma partitura, ela não é se não, eu diria, sei lá, 5%, quando muito 10%, daquilo que os músicos vão tocar. E isto é uma característica do jazz... é muito difícil encontrar uma partitura de um standard numa versão em que o músico tenha tocado exactamente como está escrito, ou a harmonia seja exactamente aquela, não é? E, naturalmente, quando vamos tocar um clássico, vamos tocá-lo como o ouvimos- a expressão é esta, exactamente: vamos tocar aquele tema como o ouvimos, e não há duas pessoas que o ouçam da mesma maneira. Dentro de um grupo, os 4 elementos se calhar também ouvem de formas diferentes mas juntos, portanto, todas essas formas de ouvir o tema juntas têm este resultado. (...) Se eu toco um tema do Coltrane, se calhar posso alterar o tema todo mas se calhar faço essa alteração por respeito ao próprio Coltrane."

Vijay Iyer-
Inertia

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Discofonia (26/27/28 Janeiro)

The Magnetic Fields-Please Stop Dancing

Mikado Lab-
Baligo (Marco Franco)

"Mas eu sabia que a Escola de Jazz do Hot Clube, naquela altura era, e ainda hoje é, para muitos alunos que a frequentam, o único sítio assim mais imediato, de um músico chegar e dizer: ok, quero estudar bateria... e música, não só bateria mas o solfejo, aquelas coisas todas... E então fiz uma audição e entrei na escola. Mas curiosamente estive três semanas lá, só, porque as aulas eram de manhã e eu, na altura, não vivia em Lisboa e adormecia muitas vezes no clube e esquecia-me de subir ao 1º andar para ir às aulas. (...) Depois tive a sorte de fazer um workshop com o Acácio Salero, que é um baterista do Porto, e com ele é que eu imediatamente percebi tudo... tudo o que ele transmitia, eu percebia. E muito rapidamente fiquei a tocar bateria, isto é, a perceber como é que se aprendia a tocar bateria na linguagem jazzística, que obedece a uma série de práticas e técnicas que não são tão simples quanto tocar rock porque o rock é uma coisa mais fácil de tocar, e vê-se... se virmos um baterista a tocar rock num vídeo, a leitura é mais fácil porque as pancadas percebem-se todas... e o jazz é uma abordagem mais intrínseca do instrumento e do músico."

"A música, seja ela qual for, independentemente da época e do estilo, toda a música tem que ter uma série de coordenadas que são... necessárias à música. Porque a música transmite emoções... Os músicos são pessoas muito atarefadas em termos de sentimentos e emoções... quem toca música sabe o que é que quero falar aqui, que é: a música não é triste nem é alegre, a música pode ser tudo... é um drama pegado."

"Eu nunca encontrei ninguém tão parecido comigo a tocar. Não é a interpretar o instrumento, até porque ele toca guitarra, mas nós temos uma coisa muito próxima um do outro, que é a divisão do segundo... num segundo pode acontecer muita coisa. E isto é uma coisa abstracta mas a música que nós praticamos é sobretudo muito assimétrica, no decorrer dos temas, que são tocados em tempo real, é toda muito rápida... geralmente, quando as pancadas se encontram em uníssono, é tudo no intervalo de um segundo. Por isso é que eu dizia, um segundo é muito tempo neste tipo de música que eu e o Nuno (Rebelo) fazemos. Ele e eu partilhamos a mesma noção de tempo e por isso é que eu adoro tocar com ele. E nós fazemos uma dupla imbatível! Mesmo!"

Cat Power-
Blue

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Discofonia (19/20 Janeiro)

David Murray Black Saint 4tet feat. Cassandra Wilson-Sacred Ground

Rabih Abou-Khalil-
Journey to the Centre of an Egg

"Eu acredito que há sempre portas entre músicas e entre culturas... Há sempre uma possibilidade de passar de umas para outras, é só uma questão de encontrar as portas. Porque na verdade está tudo ligado, não há nenhuma cultura que esteja totalmente isolada. Às vezes basta encontrar a porta certa no momento certo... Para mim foi muito engraçado, funcionou bem com a minha música. Na altura não pensei e, na verdade, nem costumo pensar, quando trabalho com músicos de culturas diferentes, nas suas tradições. Os músicos trazem-nas automaticamente consigo e eu gosto sempre muito de trabalhar com músicos que têm um grande conhecimento das suas tradições, porque conseguem transcender essas mesmas tradições de forma mais fácil. Portanto, para mim, o português resultou muito bem, por estranho que possa parecer, com os conceitos rítmicos da minha música... ritmos que mudam e tempos invulgares... Porque a minha música não é bem jazz e também não é música árabe, é muitas coisas ao mesmo tempo, e acho que tenho tido a sorte, até agora, de encontrar sempre as tais portas entre as culturas... Por isso, para mim, foi um grande prazer. Foi um trabalho grande, claro, antes mesmo de compreender o português, aprendi a cantá-lo! E aprendi o ritmo da língua, que é uma coisa importante, quando se trabalha com música e com uma língua diferente, por isso para mim foi como uma pintura abstracta. Foi muito interessante, uma experiência verdadeiramente nova, trabalhar desta forma com uma língua."

"Nunca pensei 'quero integrar esta música ou aquela'... O que aconteceu é que encontrei personalidades musicais que me interessaram. Foi sempre mais isso que aconteceu do que a influência da cultura. Por exemplo, o disco que gravei com o Ricardo Ribeiro, não é que eu tenha casado a música árabe com a música portuguesa. Eu toquei a minha música com a música do Ricardo. Se tivesse tocado com outro fadista, não teria resultado. Funcionou com esta pessoa. Com outra pessoa teria sido completamente diferente. Esse foi sempre o meu pensamento, houve sempre músicos que me interessaram, gosto da forma como se exprimem. Não penso nos estilos que tocam, não penso, por exemplo, 'quero alguém que toque música arménia comigo, ou um pianista que toque jazz comigo'... Nunca foi uma decisão consciente, nesse sentido."

"Seria um artista pobre se o sítio onde vivo não afectasse, de alguma forma, o meu pensamento. Creio que é sempre importante saber o que aprender das pessoas. Se formos para a Alemanha para aprender a cozinhar com eles... isso não é bom! Há certas coisas que não são boas para se aprender com os alemães... Se quisermos ser bons anfitriões, não é o sítio ideal para se estar, mas se quisermos aprender a ser exactos, os alemães são muito claros nas suas noções das coisas. Se alguma coisa for má, eles dizem-nos. Não se preocupam com a boa educação. Não é muito bom nas amizades mas é bom para o trabalho. E dá-nos um outro sentido para a noção de qualidade. Creio que isso é muito importante. É uma coisa boa para se aprender na Alemanha. E depois é um país com uma grande história na arte porque há sempre alguém que traz a sua sensibilidade e mistura-a com um grande desejo de perfeição, e o resultado é um produto de alta qualidade. Eu acho que tenho tido uma posição privilegiada desde que deixei o meu país, há muito tempo, por conseguir contactar com culturas e sociedades diferentes, e viver nelas, e não à margem... e poder aprender o que escolho para mim próprio."

His Name is Alive-
Geechee Recollections II

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Discofonia (12/13 Janeiro)

Mikado Lab-Speed

Clean Feed-"Record Labels of the Year 2007" (All About Jazz)

"Eles são o queijo Limiano e nós somos o queijo artesanal, de Nisa ou de Serpa, não é?, é uma coisa diferente, são todos queijos, mas nós é quase um produto artesanal, nós estamos interessados mesmo na música, é uma coisa um bocadinho diferente dos princípios que regem uma editora como a Blue Note e como a Verve. (...) A principal coisa que distingue a Clean Feed dessas editoras será o seu interesse maior ser a música propriamente dita, e ser a construção de um catálogo, e não lançar produtos que têm que vender muito. Portanto, o catálogo tem que fazer sentido como um catálogo e não só as peças independentes; nós, ao criarmos um catálogo como este, estamos a criar uma coisa una."

"Claro que a improvisação é o fio condutor da linha editorial da Clean Feed. Eu acho que o jazz é a improvisação, não é? Existem muitas discussões sobre o que é o jazz, é difícil dizer o que é e o que não é, mas eu acho que a única coisa que existe no jazz desde o princípio é a improvisação, não é o swing e, neste caso, o que nós procuramos são projectos originais, principamente artistas com voz própria, com identidade- é talvez a coisa mais importante dos nossos discos."

"Uma coisa que eu acho curiosa é que a Blue Note e a Verve, que são editoras que hoje vivem do passado, vivem muito das reedições. Por exemplo, a Sony praticamente não edita jazz, vive das reedições dos clássicos do Duke Ellington, do Charlie Mingus... É engraçado é que essas editoras não estão a fazer clássicos; daqui por 20 ou 30 anos vão continuar a vender apenas esses, os Duke Ellingtons, os Mingus e os Coltranes, mas não vão vender discos de agora, não é? Não estão a ser espertas de estar a fazer os clássicos de amanhã. Daqui por 30 anos ou 40 anos, os discos, os grupos, os projectos de hoje são os que as editoras independentes, nomeadamente essas 5 que foram votadas as editoras do ano, estão a fazer agora, não é?" (Pedro Costa)

Selecção de Pedro Costa e Ilídio Nunes (Clean Feed):
Dennis González N.Y. Quartet-
The Matter at Hand
João Paulo-Durme
Bernardo Sassetti Trio-Musica Callada, Mov.1
4 Corners-Lucia

Rabih Abou-Khalil-Die Brücke

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Discofonia (6/7 Janeiro)

Patrick Watson-Day Dreamer

André Fernandes 4teto-
Cubo

"É uma coisa que me interessa... mesmo quando criamos espaços para a improvisação, eu acho que é importante, se existe mais do que um improvisador no mesmo tema, é importante que o compositor também pense nesses espaços como uma parte importante, como uma cor específica do tema. Na maior parte destes temas, e mesmo em temas meus anteriores, é raro haver dois improvisadores a tocar sobre a mesma estrutura; acontece, como é evidente, mas na maior parte dos temas isso acho que não acontece... e também raramente há solos sobre a estrutura onde foi tocada a melodia do tema, ou seja, cada secção, inclusivamente as secções de solo, são escritas também, ou são planeadas, de forma a criar momentos diferentes, e a acomodar também o som dos intrumentos diferentes que improvisam. Foi isso que aconteceu no Sal, embora o Sal seja específico, porque existe uma estrutura de solo escrita, ou tocada, em banda, que é o meu solo, e no caso do Mário, eu deixei que fosse ele a fazer o que quisesse (...) e acho que essa é uma coisa, já agora, que é um excelente exemplo também de uma característica do Mário, que para mim é igualmente impressionante em relação às outras coisas que ele tem, que são mais visíveis, mas que é o sentido que ele tem de forma e a noção que ele tem de todos os contextos, ou seja, pode ser difícil para um músico ter um espaço vazio em que de repente és só tu, e fazes o que quiseres e pronto, e o que é verdade é que ele consegue criar um fio condutor que sai do tema que estava escrito e que regressa de uma forma super natural para o tema novo, ou seja, faz com que aquilo seja uma improvisação feita para aquele tema e não uma improvisação que podia calhar em qualquer outro."

"É estranho porque na prática é o mesmo instrumento mas acho que o contexto é tão diferente e o som é tão diferente, e aquilo que é importante, ou pelo menos aquilo a que nós temos que dar mais atenção acabam por ser coisas diferentes do que são num contexto jazzístico, e portanto a sensação geral é um bocadinho diferente. É óbvio que é uma coisa mais visceral, se calhar, e um bocadinho mais despreocupada... não num sentido negativo para o jazz, não no sentido de ser um sofrimento ou de ser mais difícil tocar jazz ou isso, não é tanto isso, mas é preciso estarmos atentos a uma série de coisas, é preciso um nível de concentração diferente do que é para tocar rock- o rock é uma coisa mais visceral."

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Discofonia (29/30/ 31 Dezembro)

Norberto Lobo-Cantiga da Ceifa

Nina Nastasia & Jim White-
Odd Said the Doe


Bill Frisell & Matt Chamberlain-The Future
Mavis Staples-
In The Mississippi River
Max Roach-
Freedom Day

Lee Ranaldo & Dana Colley-
Letter to John Clellon Holmes


Marty Ehrlich & Myra Melford-Hymn Pt.1
Young Marble Giants-
Searching for Mr. Right
The Bad Plus-
Giant

Jean Louis Murat-
Sépulture


Clã-Sexto Andar

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Discofonia (22/23 Dezembro)

Yael Naim-Toxic

Joe Henry-
Civilians


Beirut-In The Mausoleum
Jason Moran-
Refractions 2
Jason Moran-
Artists Ought to Be Writing

Burnt Friedman-
Walk with Me


Bill Frisell & Matt Chamberlain-The Wanderer
Feist-
1234
Bibi Tanga & Le Professeur Inlassable-
Ayo
Yeasayer-
Forgiveness
Giant Sand-
Iron Man

Aimee Mann-
Christmastime

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Discofonia (15/16 Dezembro)

Yael Naim-Too Long

Old Jerusalem-
The Temple Bell

"Começando a trabalhar numa canção, eu gosto de a manter em actividade. Vou tocando a canção, mesmo que não tenha nada, eu posso ter uma letra que eu sei que não vai ser a definitiva mas há uma aleatoriedade que é muito, muito interessante no processo de escrita, que eu gosto de manter diariamente quase, quando estou a trabalhar num tema. E deixo que as palavras vão surgindo e vão encaixando, mesmo que não sejam as adequadas, que sequer façam sentido, porque depois há um processo que para mim é o mais interessante na escrita, que é o descobrir sobre o que é que estamos a escrever. Porque um tema vai surgindo e vou tendo palavras de trabalho, digamos assim, que não têm nenhuma relação mas que em algum momento quase se vão tornar definitivas, com pequenos ajustes porque eu descubro que afinal estavam relacionadas, e eu não estava a fazer a associação, mas há um momento em que eu descubro sobre o que é que estou a falar e a partir daí é muito rápido o processo de finalizar a canção. Forma-se na cabeça o assunto do tema e isso depois é muito interessante, mesmo em termos de descoberta pessoal mas, lá está, isso não é partilhável, o que é uma pena. Agora, o que acontece é que provavelmente chegamos ao final com um resultado que não tem nada a ver com o inicial a não ser em duas ou três ideias-chave ou duas ou três palavras-chave e portanto, a partir de certa altura, é uma mistura de adaptação da música a palavras que têm que lá estar ou adaptação das palavras a música que tem de lá estar."

"Eu gostava bastante de ver-me, daqui a 10 anos, a continuar a fazer isto. E de forma não interrompida. Eu gosto da ideia de continuidade, mesmo com um mau trabalho. Eu acho que há-de acontecer fazer coisas que eu não acho que sejam assim... que não é o ideal, aliás nunca foi, mas eu vejo assim essa progressão como necessária. Há que haver ali passos em falso e vai haver momentos mais criativos e momentos menos criativos mas quando as coisas acabam, isso faz todo o tal corpo de trabalho que tem um sentido, que tem uma vida interna." (Francisco Silva)

António Olaio & João Taborda-20 Years in a Plane

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Discofonia (8/9/10 Dezembro)

Zeep-Funny Old Song

Pedro Guedes-
Orquestra Jazz Matosinhos invites Chris Cheek

"Eu penso que há uma certa mistificação da música de jazz, penso que a música de jazz é mais simples do que o que as pessoas pensam ou a imagem que têm dela. Porque, quer dizer, grande parte da música que é tocada, de jazz, é feita sobre uma base, sobre um ciclo que se vai repetindo, e em que as pessoas vão improvisando, por isso é uma coisa que é fácil, se as pessoas tiverem alguma predisposição e algum conhecimento, é uma música que é fácil, e que é divertida porque é, no fundo, essa criatividade toda da repetição e o que se vai fazendo com a repetição, que é a improvisação, não é?, que torna esta linguagem muito especial. E eu penso que há uma certa mistificação ligada... transformam esta música, que é uma coisa que até é bastante espontânea e simples, numa coisa complexa, mais intelectualizada, por isso eu acho que é muito importante que se façam concertos fora, primeiro que tudo fora dos grandes centros, porque nos grandes centros as pessoas certamente têm mais acesso a esta informação, e sobretudo para demonstrar que isto não é uma música complicada nem uma música fechada, bem pelo contrário (...)."

"Aquilo que eu gosto, e estou a falar por mim agora, aquilo que eu gosto, é de ouvir grandes improvisadores, em tempo real, a resolver problemas, e é isso que se passa, quer dizer, isso é muito interessante... é como ver um atleta a superar-se, é exactamente o mesmo processo. É como ver um atleta qualquer a fazer um salto... que bate o recorde mundial, ou a corrida dos 100 metros, que bate o recorde mundial, quer dizer, é exactamente a mesma coisa, são pessoas a superarem-se... em palco, com a linguagem musical, em vez de ser o desporto, que para mim ainda é mais divertido."

"As bandas (filarmónicas) têm sido núcleos muito importantes de formação e dinamização musical porque eles dão ensino e prática a uma quantidade enorme de crianças por esse país fora, crianças, adolescentes e adultos, e têm tido um papel absolutamente crucial no desenvolvimento da música e isso é importante. Sem querer entrar aqui na piscicultura, são viveiros em que felizmente permitem que muitos músicos apareçam e, por exemplo, os nossos músicos dos metais todos eles tiveram passado, vieram de bandas, foi lá que começaram a aprendizagem musical, e depois seguiram o seu caminho, fizeram o conservatório, a escola superior de música, todos eles, enfim. (...) Eu espero que (a Orquestra de Jazz de Matosinhos) seja sempre um tubo de ensaio de novos talentos, espero que a orquestra seja capaz sempre de se renovar, de ser um tubo de ensaio porque as coisas têm que ser experimentadas, tem que haver aqui alguma dinâmica, tem que se pôr a mão na massa, é importante, isso. Mas, felizmente, eu acho que a orquestra, hoje em dia, já está, penso que nós estamos a fazer um papel importante, na medida em que existe uma orquestra de jazz em Portugal que toca diferentes repertórios, e isso é uma coisa importante, embora existam a orquestra do Hot Clube, a Tora Tora Big Band, quer dizer, existem uma data de orquestras, que agora não me estou a lembrar o nome, bom, mas com a actividade regular, a fazer o trabalho que nós fazemos, penso que não existe, quer dizer, num país como Portugal, não se compreende como é que não há uma orquestra nacional de jazz, por exemplo, como há noutros países."

Mário Laginha-Do Lado de Cá do Mar

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Discofonia (1/2 Dezembro)

The Chromatics-Night Drive

Jacinta-
Convexo (A Música de Zeca Afonso)

"Eu sou mais virada para os instrumentistas, normalmente aprendo mais com os instrumentistas do que com os cantores. Aprendo mais sobre música, sobre jazz. Porque o cantor, por natureza, é muito intuitivo. Tudo é intuição... e por isso, normalmente, é um mau professor... é complicado... por isso é que a escola de canto jazz é quase inexistente, porque a passagem oral é mesmo só auditivamente. Não há praticamente uma escola de ensino do jazz vocal.(...) (Com um cantor) aprende-se muito do estar em palco e do domínio da plateia e, digamos, da zona onde se está; não é só o palco mas é toda a sala."
"Foi a partir daí, porque a tournée era com o repertório do Daydream, além de outras canções que nós pusemos ao vivo... a Canção de Embalar passou a ser um encore, porque apesar de ser uma balada e completamente parada, tinha uma reacção gigantesca do público. Eu nunca pensei que isso fosse possível e isso deu-me... quase que me incentivou a ir pegar na música do Zeca Afonso, tipo, agora tenho a desculpa, agora não me podem pegar, lá porque eu sou do jazz, eu vou mesmo fazer Zeca Afonso (...). O Zeca Afonso sempre me disse muito, faz parte das minhas raízes, sempre me acompanhou na minha formação musical, mas sempre em paralelo. Parece que nunca me permiti considerar a música do Zeca Afonso como um possível repertório, completo, para mim, tanto na música erudita como no jazz (...)."
"Sem dúvida (que existe um tabu em trabalhar a música de Zeca Afonso). Em qualquer contexto, eu diria. Porque o Zeca Afonso é o Zeca Afonso, é um ícone, quase intocável, apesar de alguma da música dele já ter sido muito feita, eu senti assim... um certo nervoso miudinho, um certo receio, do que é que me vão dizer, vão-me excomungar... Por um lado, os admiradores do Zeca vão odiar, por outro, os do jazz vão dizer que isto não é jazz... portanto foi assim um bocado... um bocado de lata!"

Bass Drum Bone-1, 2, 3