terça-feira, 22 de abril de 2008

Discofonia (19/20/21 Abril)

Asa-Fire on the Mountain

Leo Tardin-
The Biggest Piano in Town

"Quando começamos a dizer 'isto é jazz' ou 'isto não é jazz', acho que perdemos de vista a essência do que é o jazz... O jazz é uma música de inventividade e de personalidade. Se dissermos que isto é assim, ou devia ser assim, torna-se uma abordagem académica, e esta música não foi criada nas escolas! É esse o perigo, com as escolas de jazz no mundo inteiro: por um lado, é óptimo que existam, mas, por outro lado, perdemos a ligação com a essência e a urgência desta música. O que é mais importante, para mim, não se aprende na escola."

Meredith Monk-Memory Song

terça-feira, 15 de abril de 2008

Discofonia (12/13/14 Abril)

Camille-Kfir

Marta Hugon-
Story Teller

"Claro que sim, de alguma forma acho que a pessoa se revê nas canções, e se eu não me tivesse revisto de alguma forma nesta canção (Good Morning Heartache) (...). Eu acho que um cantor, quando escolhe uma canção, tem sempre isso em conta. Ou seja, uma coisa é nós escrevermos as nossas próprias letras, e isso é nosso, de outra forma... apesar de eu achar que a música, depois de a gente a fazer, ela ganha um bocadinho vida própria e é um bocado como eu me ouço às vezes e digo: é como se fosse outra pessoa! Sou eu mas ao mesmo tempo é outra pessoa a cantar. Quando se cantam coisas de outros compositores, que é o caso do repertório que está neste disco, e no primeiro também, a pessoa identifica-se com aquilo que está a cantar e por alguma razão o escolheu, não é? Senão, esse lado mais interpretativo e mais emocional que eu gosto de pôr nas canções não estava lá."

"São muitas coisas que estão em jogo mas eu acho que tem que haver sempre esse lado de representação, que também é aquilo que nos permite, mesmo vivenciando aquela experiência, manter o distanciamento necessário para entregar a canção de uma forma, vá lá, profissional, se assim quisermos. Ou seja, para manter a sua consistência, para que a música esteja acima, também, da nossa vivência pessoal, ou para que a nossa vivência pessoal não se sobreponha à música."

"Eu gosto de fazer música, independentemente... agora, de facto, é no jazz que eu posso fazer as coisas que realmente me preenchem. Eu gosto de cantar ao vivo, gosto deste trabalho com a banda, e isso com as outras músicas... acontece de outra forma, são outros processos de criatividade. São outras formas de criar."

terça-feira, 8 de abril de 2008

Discofonia (5/6/7 Abril)

Tom Brosseau-Committed to Memory

Luís Lopes-
Humanization 4Tet

"Quando comecei a ouvir Jimi Hendrix fiquei logo... Eu sempre me apaixonei por estes artistas agrestes, que valorizam a ideia em si e não a técnica para o atingir. É óbvio que é preciso sempre muita técnica para tocar como eles, mas eu digo isto, de valorizar a ideia em si, porque eles valorizam a sua forma de tocar e têm uma forma de tocar completamente diferente do que normalmente se ensina nas escolas, por exemplo. Essa forma de tocar é única e é deles. O Jimi Hendrix tem isso, não é uma pessoa académica que aprendeu a tocar- alguém lhe ensinou a tocar daquela maneira e ele foi aprendendo, e tem uma forma agreste, crua, de tocar. Falha... há a questão do erro, também, não é? Que está incluída na maneira de ele tocar e é assumido e é reciclado para fazer a música- e a ideia em si é que conta."

"Isto é como a pintura, não é? Há uns que gostam de pintar a coisa real, fazer uma cara de uma pessoa, fazer uma imagem de uma pessoa, certa, há outros que se calhar chegavam lá, faziam aquela cara, daquela pessoa, exactamente igual como o outro fez e depois passavam-lhe a mão por cima e aquilo ficava tudo desbaratinado... desfocado. Eu não consigo separar, ainda não consegui separar a música da pintura e de outras artes. Acho que é exactamente a mesma coisa. Eu pensar, em termos estéticos, em relação a uma música como o jazz, eu vou logo buscar a pintura e tentar equivaler... O que é que equivale a um músico como o Charles Gayle? Qual é a pintura que equivale a isso? (...) Ou o que é que corresponde, em termos de pintura, a um músico como o Jim Hall, por exemplo? O que é que corresponde, não é?"

"Há quem diga que na livre improvisação vale tudo menos tirar olhos. Eu digo: vale tudo, inclusive tirar olhos! Quer dizer, o que é a improvisação? Improvisação é uma palavra muito abrangente. Um guitarrista como o Jim Hall, por exemplo, ele também é um improvisador. E podemos falar do Wes Montgomery e esse pessoal todo, da clean guitar, se me é permitida a expressão. Eles são improvisadores, eles improvisam! O improviso já vem desde... aliás, é inerente à palavra jazz, não é? Eu posso é, quando estou a improvisar, posso aproximar-me da raiz do acorde, ou da melodia da música, e estar dentro da melodia, ou posso afastar-me até ao infinito, inclusive ruídos, ou não tocar, ou tocar só aquelas notas (...). É uma questão de gosto."

"Eu tenho boa memória e vou sempre reciclando tudo aquilo que fui aprendendo mas, se calhar é a chave da questão, quando estou a tocar, eu gosto de arriscar e ir para qualquer sítio onde eu nunca estive. A tocar. Gosto mesmo! Eu gosto de arriscar quando estou a improvisar, e eu sei que naquele momento eu estou a ir para um sítio onde ainda não estive. (A fazer algo) que eu não me lembro de ter feito antes. Estou mesmo a arriscar na hora. (...) É claro que depois aquilo mistura-se um bocadinho, porque eu sei que, de repente, quero arriscar e vou para um sítio que eu não conheço ainda, e de repente começam a aparecer-me outras ideias. Que eu já me lembro. (...) Eu falo por mim. Para mim tem sido assim. E é claro que vêm-me sempre as ideias todas, e vêm mesmo, estou a ser sincero. Vêm-me as ideias de tudo, não é só da música. Vêm-me as ideias das minhas vivências daquele dia e dos outros dias, as vivências todas que a gente vai fazendo... é impressionante, mas é verdade."

Bobby McFerrin-I'm Alone

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Discofonia (29/30/31 Março)


Zé Eduardo Unit-Realejo

Paula Sousa-
Valsa Para a Terri

"Eu não decidi aos 8 anos: vou ser pianista. Eu decidi milhões de vezes na minha vida. Algumas vezes fui desviada disso porque eu devia fazer não sei o quê, porque não sei o quê, mas depois eu tinha que voltar sempre à base. (...) Eu não quero viver sem ser músico."

"Dei-me relativamente (no universo da música pop). Eu acho que me dei bem, mas de alguma maneira senti que havia algo curto para mim, musicalmente, ali. Ou seja, que me era pedido que eu fizesse algo mais curto, em termos musicais; algumas vezes isso acontecia. (...) As pessoas, muito facilmente, na pop, associam... é um processo muito rápido. E que às vezes acontece depressa demais. Às vezes, quando nós passamos algum tempo a estudar, quando nós compreendemos que a música é uma coisa muito vasta, que demora tempo até fazermos alguma coisa realmente, pronto, alguma coisa que a gente possa dizer 'Bem, vamos lá, não está mal', sei lá, eu sou assim um bocadinho exigente comigo própria- então às vezes fica difícil relacionarmo-nos... ficou, para mim, difícil relacionar-me com algumas reduções de alguns processos rápidos demais. E, a certa altura, tornou-se um bocadinho insatisfatório."

"Ser pianista é um bocadinho, é daquelas profissões que se vê como arriscada, não é? Pronto, é tudo pouco garantido... Eu cada vez mais acho que o mais garantido que temos é irmos à procura de nós (...). Para mim tem sido muito difícil, desde que me conheço, convencer as pessoas que é mesmo isto, que desistam de me convencer que se eu tivesse o meu curso de economia, se eu fosse não sei o quê da farmácia, não sei o quê, é que estava tudo tranquilo. Isso tem sido muito difícil. No meio do jazz... é difícil. É um meio difícil porque, sobretudo, há grandes músicos em Portugal. Cada vez há mais bons músicos em Portugal, não há muitos sítios onde tocar... Eu não posso dizer que, como mulher, me foi especialmente difícil entrar no mundo do jazz, não posso dizer que senti aquela pressão das pessoas me porem de parte como mulher. Não senti nada disso."

Little Annie & Paul Wallfisch-
The Summer Knows

quarta-feira, 26 de março de 2008

Discofonia (22/23/24 Março)


Zé Eduardo-Zé Eduardo Unit, A Jazzar...

"O Zé Eduardo, tudo aquilo que se propõe fazer, faz. O Zé Eduardo só não vai conseguir vencer a sua própria morte. E praticamente tudo aquilo que me propus fazer, fiz. Portanto, e eu disse, 'ok, tu não queres, mas eu vou arranjar maneira de fazer isto'. E fiz a Escola no Hot. E a Escola morreu. Ou seja, nasceu em 77 e morreu meses depois. Morreu porquê? Porque o Villas-Boas pegou na Escola e levou-a para o Louisiana, tal como tinha prometido. Aliás, eu respeito muito o Villas-Boas porque é um gajo quase tão louco como eu, tão obstinado como eu e, portanto, estivemos 10 anos sem nos falarmos- de relações cortadas! Foi um tipo que me expulsou do Cascais Jazz em 1979. Disse 'Fora, isto é a minha casa!', do Desportivo de Cascais, lembro-me perfeitamente. (...) A reconciliação foi quando eu vim com a orquestra do Taller de Músics, de Barcelona, com o Tete Montoliu como solista, ao São Carlos, a abarrotar, em 1989. E quem é que vejo nos camarins depois do espectáculo? O Villas-Boas, com os braços abertos. E disse-me só assim, e aí foi a reconciliação: 'Eh pá, ó Zé Eduardo, você conseguiu, pá!'"

"Ainda ontem estive numa jam- eu cheguei ontem a Lisboa e fui meter-me no Hot, como é óbvio. Quer dizer, é óbvio! Não tenho outro sítio para ir, quando venho a Lisboa venho ao Hot. E era 3ªfeira, sabia que havia jam session, fui lá e estive a tocar. E estive a tocar com malta nova que eu nem sei quem é! E há malta a tocar muito bem, e ainda bem! Miúdos novos, a tocar... Portanto, eu fui lá e estive a tocar... foi engraçado, estive a tocar com o Tó Zé Veloso, que é um dos históricos do Hot. Eu disse-lhe, toquei 2 ou 3 temas e disse:'Eh pá, ó Tó Zé, cada vez que toco consigo eu sinto-me um miúdo, pá! Como no primeiro dia!', 'Eh pá, não, pá!', ele assim, e eu, 'Não, pá, sinto-me, eu agora estive a tocar consigo, senti que tinha 18 anos e estava aqui pela primeira vez!'"


"Quando não tenho tempo para tocar pelo menos meia-hora, fico altamente mal disposto. Fico deprimido, fico com sentimentos de culpa e de remorsos, e não sei quê... E às vezes não posso mesmo (tocar). Às vezes chego ao fim do dia e não toquei, e digo: 'Não tocaste, pá!'... Ah, porque eu tenho um caderno onde escrevo tudo o que toco, há 30 anos. Não é esse caderno, tenho vários, tenho uma colecção de cadernos! (...) É o que eu tenho de estudar. Eu sempre que estudo, gravo-me. Depois ouço e sou o meu próprio professor. Vejo onde é que falho e depois vou praticar aquela coisa onde estou a falhar até achar que está bem. Trabalho assim. Depois ponho no caderno, fiz aquilo, aquilo, aquilo- e faço isto há 30 anos, quer dizer, devo ser um bocado psicótico!"


"Eu, quando era militante, activista estudantil, antes do 25 de Abril, já sabia as músicas do Zeca. Mas sabia as músicas do Zeca como sabia a Internacional, quer dizer, era obrigatório! Portanto, o Zeca diz-me, a mim, nesse aspecto. O Zeca, para mim, ainda é isso, ainda é ter a polícia de choque ou estar nas searas do Alentejo. (...) Eu gravei vários discos de música portuguesa mas estava lá tipo mercenário. Pagavam-me e eu ia para lá e fazia o melhor possível."


"(O contrabaixo) é o mesmo, desde que eu sou estudante. É o mesmo. Só outro dia aconteceu-lhe um acidente, porque um dos meus road managers... a primeira vez, ele disse: 'Eh pá, eu sou músico, como vês, eu trato bem dos instrumentos, posso levar o teu contrabaixo?' E eu nunca deixei ninguém levar o meu contrabaixo. Sempre levo eu. E uns dias antes tinha-lhe dado ordem: 'Passas a levar, acho que sim, mereces.' Pronto! Deu-lhe um encontrão, bateu na esquina daqueles monitores de palco que são em forma de triângulo, fez uma racha... pronto, tirei-lhe outra vez a prerrogativa, continuo a carregar eu o contrabaixo. Foi a única vez. Aliás, foi a grande cacetada que ele levou nos últimos 30 anos, foi essa. Foi em Novembro. Tem o braço solto, e este A Jazzar (nos Cartoons) foi gravado assim, no dia seguinte a ter levado a cacetada. Por isso é que isso soa tão bem!"

quinta-feira, 20 de março de 2008

Discofonia (15/16/17 Março)

Little Annie & Paul Wallfisch-Victim

Demian Cabaud-
Naranja

"O contrabaixo é um instrumento que escasseia muito, se diz assim, no? Será que é muito difícil de tocar? Eu acho que é muito difícil de tocar. Ou porque não é um instrumento propriamente fácil de abordar. Muitos instrumentos, se começa de criança a tocar, tipo piano, violino ou viola, mas o contrabaixo não se pode tocar de criança. A partir dos 18 anos ou assim é que uma pessoa começa a pensar no contrabaixo. Acho eu."

"Não quero tirar mérito ao baixo eléctrico mas sempre gosto de decir que o contrabaixo é um bocado como que metafísico. Porque o baixo eléctrico, como a guitarra, não tem o problema da afinação, como o contrabaixo tem. Porque tem os trastes e as marquinhas, e tu sabes que metes o dedo em tal sítio e a nota existe. Mas no contrabaixo, no violino e instrumentos clássicos, não. É treino e apurar o ouvido. Então como que o instrumento existe na tua cabeça e não existe fora, não é? Não sei, gosto de pensar assim. (...) É um desafio muito maior. Todos os dias, de cada vez que pegas no instrumento é o desafio."

"Eu não cresci com o jazz. Na minha casa não se ouvia jazz. Foi como quem está a cavar um buraco no jardim e, de repente, encontra-se aí com um tesouro. Mas tive de ser eu a cavar o buraco. Não estava feito."

Magik Markers-
Empty Bottles

segunda-feira, 10 de março de 2008

Discofonia (8/9/10 Março)

Caribou-After Hours

Stacey Kent-
Breakfast on The Morning Tram

"Foi como contar uma história! É uma forma muito natural de cantar, como se estivesse a falar com alguém. Aliás, a maneira como escrevemos as canções foi muito interessante desse ponto de vista porque o Kazuo escreveu as letras primeiro, porque estávamos no Colorado e não podíamos juntar-nos os 3 à volta do piano para trabalhar. E mais tarde, o método que resultou melhor para mim e para o Jim foi eu ler-lhe as letras. Como se estivesse a ler poesia ou a contar uma história. E ele escreveu as canções a partir do meu ritmo natural, porque eu estava a cantar sem realmente cantar- estava a cantar antes de haver uma melodia. E o Jim diz que foi assim que conseguiu compôr as canções de forma tão fluente... Ouviu o meu ritmo e foi daí que nasceram as canções."

"Gosto que o realizador tenha uma personalidade forte e uma visão própria, mas que não se imponha e deixe a história contar-se a si própria. E isso é o que sinto em relação à música: sim, sou eu que canto, mas a canção não é sobre mim! Não é uma questão do que consigo fazer com a voz, é uma questão de ser aquela história! E quero que essa chama se desvaneça, seja o realizador ou a cantora, de modo a que só se sinta essa história. E que só se veja essa química, porque a química é tudo! Ok, não é tudo, mas é o poder, o que alimenta tudo aquilo!"

Michaël Attias-
Hot Mountain Song

terça-feira, 4 de março de 2008

Discofonia (1/2/3 Março)

Terry Lee Hale-Evergreen

Mind Da Gap-
Matéria Prima (1997-2007)

"Houve aí uma altura em que nos sentíamos resistentes porque, para além dos Mind Da Gap, assim com edições, vamos dizer, com a dimensão das nossas, e quando digo dimensão, digo com uma editora com alguma importância e com promoção e com entrevistas e estas coisas que normalmente se fazem, durante algum tempo fomos dos poucos a fazê-lo. Nessa altura pareceu-nos mais resistência do que agora, agora é um bocado velocidade de cruzeiro."

"A nossa tendência é cada vez mais dar importância aquilo que se diz e não à forma como se diz. O assunto é cada vez mais relevante em relação à forma."

"Eu reconheço em mim, e agora estou a falar em mim enquanto músico que pertence aos Mind Da Gap mas que cria as suas letras em casa, sozinho, a pensar naquilo que está a escrever, percebo perfeitamente e lucidamente que tenho momentos que são só meus, apesar de os partilhar com o Presto, e que depois serão nossos, e que muito pouca gente se conseguirá identificar ou até perceber o que nós estamos a dizer. Mas isso também tem a ver com a maneira como nós criamos porque, como eu estava a dizer, é uma coincidência que as pessoas gostem dessas músicas e que elas se tenham transformado em hinos porque, para nós, basicamente, estamos a criar para o nosso umbigo." (Ace)

Mikado Lab-
Caixa Fechada
Bass Drum Bone-
Insistent

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Discofonia (23/24/25 Fevereiro)

Richard Hawley-Serious

Marco Barroso-
L.U.M.E. Big Band

"Eu chego com tudo escrito. Até por questões práticas, geralmente o tempo para ensaiar não é muito e as coisas têm que funcionar depressa, tens que ver o que não está bem depressa, tens que ir para casa pensar depressa e pôr as coisas a... bombar rapidamente. Portanto, isso tudo passa muito por mim, realmente. Perceber o que é que funciona, o que este músico faz bem, onde é que ele está mais confortável, aqui, acoli... E depois fazeres uma síntese disso tudo e tentares compor sinergicamente todos aqueles elementos, não é?"

"Quando estás a falar de um contexto de orquestra, eu acho que tens que imprimir directrizes... acho que o contexto pode ser muito improvisado e tu vês orquestras de free jazz e com uma estética muito vanguardista, que fazem uma música muito interessante, mas às vezes sente-se um bocado falta dessa directriz. Eu compreendo a ideia de querer uma música que seja muito momentânea, muito improvisada, muito democrática, não é?, mas tu podes enriquecer o discurso com nuances dando directrizes e não comprometendo esse sentimento de momento. (...) Ali, a ideia é realmente haver um equilíbrio entre as minhas ideias, entre a minha música e aquilo que eu faço em termos da composição, e depois aquilo que eles podem dar, enquanto intérpretes e enquanto improvisadores, e é chegar a uma sinergia dentro desse equilíbrio. Porque atrai-me muito essa ideia de uma música que seja composta mas que é complementada com a improvisação, porque no fundo a minha música é revitalizada pelas idiossincrasias e por todo o background que eles têm."

"Eu falo nessas influências todas, do Mike Patton, dos Megadeth, da Italian Instabile Orchestra, da Vienna Art Orchestra, isto, aquilo, aqueloutro, mas no fundo... quer dizer, claro que nós temos sempre uma tendência para analisar e desmistificar o que estamos a fazer mas eu até gosto de conservar alguma ingenuidade. Isto pode parecer um bocado estranho... eu acho que deve haver alguma irracionalidade quando estamos a fazer as coisas, sob pena de se poder estar sempre a castrar.(...) Acho que tem tudo a ver com comunicação e emoções. Quer dizer, quando estás a compor... eu estou sozinho em casa, estou a escrever música e, de alguma forma, começo a emocionar-me com aquilo que estou a fazer. Não sei, é como se fosses um... um transmissor de ondas. Acho que quando estás sozinho, isto é um bocado esquisito, mas tu podes estar sozinho e estás a compor... eu acho que já estás a comunicar... Há ali qualquer coisa estranha que não passa só por mim, passa por essa coisa de estar a emitir ondas... É uma forma transcendental, às tantas, de estar a comunicar, não sei..."

Mari Boine-
Big Medicine

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Discofonia /16/17/18 Fevereiro)

Festival para Gente Sentada, Santa Maria da Feira, 2008.

Sean Riley & The Slowriders-
Lights Out
Norberto Lobo-
Cantiga da Ceifa
Nina Nastasia-
Late Night

Terry Lee Hale-
Hearts


Richard Hawley-Roll River Roll


Joe Henry-Loves You Madly

"Creio que o disco de colaborações soul, I Believe to My Soul, que criei... foi um projecto que desenvolvi, com o Allen Toussaint, a Mavis, a Irma Thomas, a Ann Peebles e o Billy Preston, foi para mim uma satisfação enorme, porque comecei com uma ideia e levei-a até ao fim, e foi uma viagem e tanto! Sinto-me muito orgulhoso por ter sido feito. Foi quase como realizar um filme, foi um caminho tão longo e envolveu tanta gente antes de se conseguir chegar ao fim... Mas todos os discos que fiz têm alguma vertente de que me orgulho. E tenho um orgulho especial no disco do Solomon Burke, Don't Give Up on Me, porque eu não era a escolha mais óbvia para produzir o disco, e a certa altura achei que não ia ficar com a produção... E fizémos uma coisa única, muito especial, com o Solomon- seguramente, em todo o caso, algo que ele nunca tinha feito antes. Não foi um projecto fácil mas foi bonito e tenho muito orgulho nele."

Joe Henry-Civilians
"As minhas canções não podem ser explicadas como se houvesse legendas num filme... Se houvesse uma forma mais directa, mais limpa, de dizer o que queria dizer, então teria escrito assim. Acho que, por vezes, há aspectos da vida tão obscuros e tão cheios de nuances, que têm que ser enfrentados da mesma forma. Se eu tivesse que resumir essa canção, diria que é sobre pessoas que tentam manter o equilíbrio nas suas vidas, entre as expectativas e a realidade. Que tentam enfrentar o facto de que a vida tem o seu próprio caminho e que não corresponde à forma como a imaginámos, ou sequer que conseguimos controlar esse caminho. E que todos temos que ter paz com o facto de que, a certa altura, há qualquer outra coisa que toma o controlo."

"(Trabalhar com o Ornette Coleman) foi uma experiência transformadora! Eu compreendo que a música dele seja difícil para algumas pessoas, mas podemos dizer o mesmo da música do Duke Ellington, do Erik Satie ou do Stravinsky. O Ornette não toca para soar difícil, ele apenas toca a música como a ouve. É um músico incrivelmente generoso e acho que as melodias dele são admiráveis... são muito espontâneas e podem ser complicadas para algumas pessoas mas, para mim, é alegria pura quando o ouço tocar. E tive imensa sorte que ele tivesse concordado em gravar comigo... a noite em que estivémos a trabalhar foi uma experiência de uma vida... o facto de ele ter acolhido o que eu estava a fazer e de não ter tocado nada por hábito... Ele estava realmente a tentar compreender que contribuição era necessária da sua parte, e eu fiquei-lhe grato, foi realmente espantoso. Acho que ele é um músico sem par, não há ninguém como ele. E a voz dele no saxofone é tão imediatamente reconhecível como a voz do Frank Sinatra. Ouvimo-lo tocar duas notas e sabemos que é ele, e acho que isso é um grande dom."

Joe Henry-
Richard Pryor Addresses a Tearful Nation

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Discofonia (9/10/11 Fevereiro)

The Magnetic Fields-Courtesans

Enrico Rava-
The Words and The Days

"Não sei porque é que acontece, mas ainda agora, nestes últimos anos, descobri o Stefano Bollani, o Gianluca Petrella e muitos outros, que entretanto se tornaram muito conhecidos... Na verdade começaram comigo quando eram completamente desconhecidos e jovens... Eu gosto muito de tocar com músicos novos, que querem ser bem sucedidos, especialmente se estiverem mais ou menos sintonizados com a música como eu a entendo... é muito divertido tocar com eles. Prefiro tocar com gente muito mais nova do que eu do que com músicos da minha idade. Os músicos da minha idade são como pedras, sabe? É impossível pedir-lhes para se abrirem a certas coisas, enquanto os mais novos gostam de explorar, de descobrir, são mais curiosos."

"Antes de mais, eu considero o Gianluca o melhor músico que a Itália produziu nos últimos 20 anos e um dos melhores de sempre, nascidos em Itália. Se ele tocasse clarinete ou qualquer outro instrumento, eu gostaria de tocar com ele de qualquer forma. E o mesmo é verdade do Roswell (Rudd), que é para mim um dos grandes mestres. (...) E, para além disso, eu adoro o trombone! Os meus músicos preferidos são quase sempre trompetistas, o Miles, o Chet, o Louis Armstrong, mas o prazer de tocar é maior com o trombone! Porque o trombone tem o mesmo registo da voz masculina; se eu falar e depois tocar trombone, o som é o mesmo, enquanto que o trompete é mais agudo... E embora eu fosse um amador como trombonista, era mais fácil para mim... com o trompete parece que estou sempre a lutar... Na verdade toco trompete porque gosto tanto de certos trompetistas que queria ser como eles... Mas gostava de tocar trombone. E acho que soa tão bem com o trompete, porque é o mesmo instrumento. Por exemplo, o flügelhorn não é o mesmo instrumento, o flügelhorn é um instrumento cónico, da família das tubas. Mas o trompete e o trombone pertencem à mesma família e, por isso, quando tocamos certos intervalos, por exemplo, se eu tocar uma nota, e o trombone tocar uma harmonia atrás de mim, às vezes produzimos notas extra. Tocamos só duas notas, a minha nota e a nota dele, mas se ouvirmos com atenção, conseguimos distinguir uma série de outras notas pelo meio... Surpreende-me que esta combinação de instrumentos tenha sido tão pouco usada! Excepto talvez o Bob Brookmeyer... mas não me lembro de muita gente, só eu é que juntei o trompete e o trombone como um grupo, sem qualquer outro sopro! Espanta-me que ninguém faça isso porque o som é fantástico e é tão divertido!"

"Para dizer a verdade, não costumo ouvir os meus discos antigos. Normalmente ouço muito um disco quando acabei de o gravar, e durante 2 ou 3 meses não paro de o ouvir, especialmente antes das misturas finais, para decidir pequenas coisas... Mas às vezes, quando ouço discos meus mais antigos, a única coisa que ouço são os erros... Sei que há ali um erro, num sítio qualquer, então espero que chegue o erro (risos)... Ou uma frase que acho que não toquei bem, ou de que não gosto... espero pelo momento do disco que sei que não é bom! É estranho mas nós gostaríamos de fazer o disco perfeito... Este disco, The Words and The Days, é um dos discos em que me sinto 90% feliz. Quando o ouço, penso, ok, é assim que eu gostava de... ser, de tocar, sempre! É este nível que eu gostaria de ter sempre! É um disco que me parece bem tocado, gosto dos temas, e é um disco que conta uma história. Mas também tenho alguns discos que nem sequer consigo olhar para eles! Tenho um, por exemplo, String Band, de que muitas pessoas gostaram, na altura, e eu nem posso olhar para ele! Só de olhar para a capa, sinto-me mal (risos)... Há tantas coisas nesse disco de que eu não gosto... alguns solos, coisas que o resto do grupo tocou que também não gosto... É muito difícil olharmo-nos ao espelho. Quando tocamos, é aquilo e mais nada. Abrimo-nos e pronto, somos nós. Mas nem sempre é uma visão agradável."

(9/10/11 Fevereiro)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Discofonia (2/3/4 Fevereiro)

Cat Power-Ramblin' (Wo)man

Vasco Agostinho-
Fresco

"(A tradição) dá-nos uma base sólida daquilo que pode ser feito, além de que é um treino. Eu gosto de pensar nisto como uma linguagem verbal. Se nós queremos escrever poesia, é muito importante que conheçamos aquilo que já foi escrito (...) e isto no caso da poesia parece-me mais óbvio do que na música. E na música é fundamental porque a construção da nossa linguagem pessoal é um pouco a mistura da nossa vivência musical e a nossa vivência tem a ver com a tradição, tudo o que já foi gravado e que nós gostámos e quisémos adquirir. (...) O que nós queremos não é necessariamente ser conhecedores da tradição- quer dizer, isso dá muito jeito se quisermos dar aulas de história, mas quando se trata de tocar, o que é que nós temos que conhecer? São os recursos musicais que podem ser usados, no nosso instrumento ou na música do grupo. No fundo é isso que é importante. E naturalmente, enquanto português, por exemplo, tive uma série de influências que não vêm exclusivamente do jazz- Carlos Paredes, por exemplo, eu diria que é uma grande influência em mim."

"Desde o fado ao pop, há toda uma série de coisas que vou ouvindo, no meu dia-a-dia, que me despertam a atenção e que eu vou querer aprender porque hoje em dia, também, a música caminha para aí, não é? E caminha para aí porque nós estamos cada vez mais abertos, os músicos são cada vez mais abertos. É uma consequência natural, se calhar, da própria história da música."

"No jazz, quando nos aparece uma partitura, ela não é se não, eu diria, sei lá, 5%, quando muito 10%, daquilo que os músicos vão tocar. E isto é uma característica do jazz... é muito difícil encontrar uma partitura de um standard numa versão em que o músico tenha tocado exactamente como está escrito, ou a harmonia seja exactamente aquela, não é? E, naturalmente, quando vamos tocar um clássico, vamos tocá-lo como o ouvimos- a expressão é esta, exactamente: vamos tocar aquele tema como o ouvimos, e não há duas pessoas que o ouçam da mesma maneira. Dentro de um grupo, os 4 elementos se calhar também ouvem de formas diferentes mas juntos, portanto, todas essas formas de ouvir o tema juntas têm este resultado. (...) Se eu toco um tema do Coltrane, se calhar posso alterar o tema todo mas se calhar faço essa alteração por respeito ao próprio Coltrane."

Vijay Iyer-
Inertia